O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa
Da cartola dos versos tirei a esperança, a transformei em pequena criança, e exclamei com um fervor sem lembrança, o mundo é teu vá o transformar, em seu olhar enxerguei as mudanças, contemplação de tanta abundância, que da magia poética foi se originar;
O pequenino exclamou prontamente, labutarei demasiadamente, serei um incansável ser que sente, no peito meu repousa um esperançar, voltarei tão logo sorridente, semearei voraz e eloquente, visitarei cada lugar, é chegada a hora, a missão é urgente, poeta rabisque sorte em meu caminhar;
A criança se deparou com a arrogância, com o asco, e a intolerância, não entendia aquele lugar, viu gente matando gente, tanques de guerra, gritos estridentes, cheiro de pólvora, ambição a reinar, soldados iludidos combatentes, gana por mais, justificativa indecente, em meio ao sangue diluído ao chorar;
No caminho observou sorridente, as terra férteis, o trigo a brotar, cardumes de peixes no verdejar do mar, riqueza de flora, fauna, mas, não entende, o porquê de fazerem dos diversos tipos de sementes, dos palmos de chão, dos peixes que nascem naturalmente, e de toda riqueza que Deus sem cobrar nada nos dá, moeda de troca voraz e que não sente, o doer da fome e o frio que congela estridente, o menino chora observando esta gente, que vende a saciedade, o nutriente, mendigos os verdadeiros combatentes, sem fardas, com fome e sem lar;
Observou a fé que aqui se vende, falsa salvação que querem proclamar, o menino não aceita este tipo de gente, que das palavras divinas fazem o arrecadar, estupefato ora comovente, meu pai do céu aqui não é meu lugar, tenha compaixão destes seres descrentes, que com palavras bonitas só enganam e mentem, não estás a venda, moras dentro da gente,nossos corações querem barganhar;
A criança caminha descrente, introspecções invadem sua mente, exclama ao poeta que quer retornar, foi atendida prontamente, em rabiscos o poeta antecipou o regressar, de uma criança que outrora valente, extasiada com uma aflição latente, para o mundo dos sonhos anseia voltar;
O pequeno chegou amargurado, com o coração dilacerado, tantas mazelas que cansam o penar, me olhou desconfiado, e um pouco emocionado, antes de na cartola adentrar, me perguntou sorrateiramente, com seu encantar envolvente, o porquê de eu abruptamente o criar, o coloquei em minha frente, e tão logo de repente comecei o meu explicar;
Dos rabiscos que o poeta sente, e das palavras que saltam das mentes, implorando para se libertar, há de se atender mais prontamente, a aquelas que podem mais sutilmente, atingir alguma mente, quando alguém a vislumbrar, do encantado de minhas intemperanças, virastes pequena criança, és formada de papel com tinta, de palavras desconexas que saltitam, mescladas com meu indagar, terei a eterna lembrança, daquela tão brava criança que ansiava modificar, um mundo desconhecido, e que voltou com o coração aflito, desolada com o deparar, te prometo não serei insensato, retorne para o mundo encantado, onde o amor é o maior legado, e não precisa tanto questionar, te chamas necessária esperança, na pele de uma criança, em ver o mundo um melhor lugar;
O pequeno com os olhos marejados, em um passo de mágica se desfez, o poeta guardou a cartola, e as palavras que outrora, um sonho lhe refez, a criança poeticamente ainda chora, no encantado dos declamares ela mora, em um mundo sem insensatez.
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